Conhecer-se é se libertar, e a psicoterapia, em suas diversas abordagens, tornou-se não apenas um recurso de cura, mas uma forma de alcançar esse tão desejado autoconhecimento. Entretanto, por mais profunda e transformadora que seja, a terapia é, antes de tudo, um emaranhado de códigos, um campo de escuta e nomeação mediado por linguagem própria, com sua estrutura, seu tempo e suas limitações. Porém há recônditos da alma humana a que essa técnica, ainda que habilidosa, não chega. É nesse vão entre o óbvio e o inefável que os livros aboletam-se como uma possibilidade de desvendar os mistérios que nos atravessam. Bons livros não solucionam problemas; eles apontam o caminho para que achemos nós mesmos essa pretensa solução, recusando a facilidade enganosa dos manuais de autoajuda, um gesto de coragem intelectual. Em vez de procurar respostas mastigadas e fórmulas de felicidade instantânea deve-se aceitar que o caminho para a plenitude é doído. A literatura não oferece atalhos, ou até os pode oferecer, mas esses atalhos desdobram-se tanto que acabam em labirintos. No lugar de modelos, somos intimados, sim, à dúvida, à reflexão e à mudança. Os grandes livros expõem a complexidade de ser gente. Por meio deles tolera-se a solidão, cultiva-se a piedade, acolhem-se os defeitos, os nossos e os dos outros. Os grandes livros ferem antes de sanar o mal, instilando em nós o gosto por entender os segredos da existência. 

Viver é uma dança no escuro. Cada instante é um enigma, e a consciência, esse lampejo breve entre dois abismos, tenta costurar alguma lógica entre nascimento e finitude. Há quem persiga  respostas no transcendente, em pressupostos científicos, em amores que flertam com o eterno, mas ninguém atreve-se a desmentir que as maiores delícias do estar no mundo são as coisas miúdas, quase insignificantes. O existir é um deleitoso paradoxo, absurdo e racional, abjeto e encantador, bravio e delicado, e o mais prudente a se fazer é integrar-se a esse fluxo controverso, como se a sabedoria maior fosse esta: viver não é entender, mas supor, verbo chegado à especulação e, esticando-se um tanto a corda, ao milagre. Em Dostoiévski, Rilke ou Tolstói, achamos um esforço por registrar o extraordinário que rodeia-nos neste plano; assim, os três figuram, ao lado de mais quatro escritores, na lista que preparamos, com sete livros que vão mais fundo que as muitas horas de análise e, às vezes, os medicamentos. Não se trata de substituir estes pelos primeiros, mas de complementá-los, unindo a magia da literatura aos métodos devidamente submetidos a testes e contraprovas. Para dores que não se explicam.



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