Não é difícil chamar Guimarães Rosa de inventor. Difícil é sustentar essa invenção como solitária. Porque o que ele fez, ao torcer o idioma até encontrar algo que só ele falava, teve método, sim, mas também teve lastro. Ele era leitor atento, mais do que voraz. Falava alemão, francês, italiano, inglês, espanhol, português antigo. E lia cada língua como quem fareja: procurando não a palavra perfeita, mas a falha, a dobra, o ruído que podia virar sintaxe. Ainda assim, mesmo entre os mais atentos, há quem se pergunte o que veio antes disso. Que vozes, que livros, que obsessões antecederam o que ele chamou, uma vez, de “autobiografia irracional”. A resposta, se existe, não é curta — mas passa por cinco obras que deixaram marcas reais, visíveis, quase escutáveis, em sua prosa. São livros que não apenas o influenciaram. Eles o desafiaram. Foram modelos e limites, às vezes tudo junto. Neles, Rosa reconheceu o que ainda não sabia fazer — e o que talvez nunca ousasse, não fosse por ter lido. E não é pouca coisa: a rigidez exata de Euclides da Cunha, a ambiguidade cruel de Machado, o fluxo radical de Joyce, a oralidade zombeteira de Aquilino Ribeiro, a sombra heroica de Homero. Cada um desses livros, à sua maneira, ofereceu a Rosa não uma resposta, mas uma provocação. E ele respondeu — não com ensaio, nem com cópia. Mas com linguagem. Ler Rosa depois de conhecê-los não é uma maneira de “entender melhor”. É, talvez, uma forma de acompanhar o caminho que ele traçou de trás pra frente: do verbo de agora até a fala que ainda não tinha forma. Um caminho que não tem placa. Mas que tem rastros. E esses livros, de certo modo, são alguns deles. Ou, pelo menos, as pegadas mais fundas.



Fonte

Deixe o seu Comentário

Compartilhar
error: Content is protected !!