Quando Bárbara Cristina, mãe de Matheus, foi questionada pela pediatra se o filho tinha diabetes, ela respondeu sem hesitar: “Não, eu não dou doce para ele”. A frase, que poderia passar despercebida em outro contexto, mostra o tamanho da lacuna de informação que ainda existe entre as famílias: a confusão entre o diabetes tipo 1 autoimune (DM1 autoimune) e o diabetes tipo 2 (DM2). A relação equivocada com o consumo de açúcar ou com hábitos alimentares e a ideia de que “diabetes é tudo igual” ainda fazem parte do cotidiano de muitos pais e mães no Brasil. Entender essa diferença é fundamental e pode mudar completamente a forma como as famílias identificam sinais, buscam cuidado e se preparam para a chegada da doença.
O que diferencia o diabetes tipo 1 do tipo 2?
O diabetes tipo 1 autoimune é uma doença progressiva, na qual o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.1 Não há relação com dieta, peso, exercícios físicos ou estilo de vida.
“O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Por uma razão que a ciência ainda não explica totalmente, o organismo começa a produzir anticorpos que atacam as próprias células do pâncreas. Não há nada que os pais pudessem ter feito para evitar; não é o excesso de doce ou a falta de exercício. É uma condição do sistema imunológico”, explica o Dr. Luis Eduardo Calliari, endocrinologista pediátrico.
Já o diabetes tipo 2 é uma condição metabólica, muito mais comum na população adulta, é caracterizado por resistência à insulina e deficiência parcial de secreção de insulina pelas células beta do pâncreas.4-12 A separação entre essas duas formas da doença define caminhos de cuidado completamente distintos. Em outras palavras: é o próprio corpo que desencadeia o diabetes tipo 1 autoimune, e não um hábito ou uma escolha. Ainda assim, a falta de informação sobre essa diferença é enorme — e afeta diretamente a forma como as famílias lidam com o diagnóstico e interpretam os primeiros sinais.
A DM1 começa muito antes dos sintomas
Um dos pontos menos conhecidos sobre o diabetes tipo 1 autoimune é que ele não começa quando os sintomas aparecem. Na verdade, a doença evolui de forma silenciosa e previsível por estágios clínicos bem definidos.17
- Estágio 1: presença de dois ou mais autoanticorpos positivos, confirmados, sem alteração da glicose ou sintomas, sem necessidade de insulina.17
- Estágio 2: presença de dois ou mais autoanticorpos positivos, confirmados, sem sintomas, sem necessidade de insulina, com disglicemia (anormalidade nos níveis de glicose), porém sem preencher critérios para diabetes.17
- Estágio 3: Presença de hiperglicemia de início recente, preenchendo critérios para DM, com ou sem sintomas (como sede intensa, urinar muitas vezes ao dia, perda de peso e cansaço), e um ou mais autoanticorpos positivos.17
- Estágio 4: DM1 de longa duração
Esse modelo de evolução ajuda a explicar por que tantos casos são descobertos apenas em situações de emergência. Sem sintomas nas fases iniciais, a DM1 autoimune permanece invisível, até que o pâncreas não consegue mais suprir a demanda e ocorre a descompensação. Segundo estudos, até 62% dos diagnósticos ocorrem durante um episódio de cetoacidose diabética (CAD), uma complicação grave que exige atendimento imediato.13-14
“Muitas vezes, esses sintomas são confundidos com uma virose ou uma infecção urinária. O grande perigo é que, se não diagnosticado rápido, o diabetes tipo 1 autoimune evolui para a cetoacidose diabética. O sangue fica ácido, a criança começa a vomitar, fica desidratada e entra em um estado de mal-estar profundo que exige internação em UTI. Por isso, se houver suspeita, um simples teste de ponta de dedo na farmácia ou um exame de urina já podem salvar essa criança de uma complicação grave”, explica o especialista.
Foi o que aconteceu com Mariana Guidorizzi, mãe de Valentina. Sem entender o que estava ocorrendo, ela precisou correr para o hospital com a filha, que já estava em cetoacidose. “Eu não fazia ideia do que era aquilo”, conta. O susto, segundo ela, poderia ter sido menor se tivesse tido a chance de saber antes.

A importância da detecção precoce no diabetes tipo 1 autoimune
A identificação precoce é o que separa um diagnóstico controlado de uma emergência médica. O Dr. Luis Eduardo destaca que os pais devem estar atentos aos sinais iniciais: “Existem sinais muito claros que os pais precisam observar, que nós chamamos de ‘os quatro Ps’. O primeiro é a poliúria: a criança começa a urinar demais, inclusive voltando a fazer xixi na cama ou acordando várias vezes à noite. O segundo é a polidipsia: é uma sede fora do comum, a criança bebe muita água e a boca parece estar sempre seca. O terceiro é a polifagia: uma fome excessiva, ela come muito, mas — e aqui vem o quarto sinal — ocorre a perda de peso. Se a criança está comendo muito, urinando muito e perdendo peso, o sinal de alerta deve ser imediato.”
Hoje, a ciência avançou a ponto de permitir que a DM1 autoimune seja diagnosticada antes dos sintomas, por meio da testagem de autoanticorpos específicos.17 Esses exames detectam se o sistema imunológico já começou a atacar as células do pâncreas, mesmo quando a criança não possui nenhum sintoma. Existem quatro tipos principais de autoanticorpos associados ao diabetes tipo 1 autoimune. Quando dois ou mais autoanticorpos aparecem, a progressão para o estágio clínico (Estágio 3) é praticamente certa ao longo da vida, e cerca de 75% desses indivíduos com glicemia alterada evoluem para sintomas em até cinco anos.18
“O diagnóstico de diabetes tipo 1 autoimune nunca chega sozinho. Ele vem acompanhado de um luto. A família perde aquela ‘criança saudável’ que imaginavam e ganha uma rotina de cuidados. É comum os pais sentirem culpa, mas eu sempre reforço no consultório: tirem o peso das costas. O foco agora não é o porquê aconteceu, mas o como vamos viver a partir de agora. Com o tratamento correto, essa criança vai crescer, estudar, praticar esportes e ter uma vida absolutamente produtiva”, reforça o Dr. Luis Eduardo. “Quando você descobre nos Estágios 1 ou 2, você evita que a criança chegue no hospital em cetoacidose, que é aquela situação de UTI”, completa.
Ou seja, a detecção precoce antecipa a compreensão da doença e permite que as famílias se preparem com antecedência, com acompanhamento médico adequado e, principalmente, sem o susto de descobrir a DM1 autoimune no meio de uma emergência. Ao serem questionadas se gostariam de saber antes, as mães são unânimes em reconhecer o valor dessa informação. Renata Buscarino, mãe de Lucas, reforça: “Acho que a ansiedade seria maior, mas eu teria tempo para me preparar.” Esse tipo de fala mostra que, para muitas famílias, tempo é sinônimo de segurança.
Por que isso importa para pais e mães?
Viver com DM1 autoimune exige cerca de 180 decisões diárias relacionadas à alimentação, insulina, glicemia e cuidados gerais.20 É natural que o diagnóstico provoque uma reviravolta na rotina de qualquer família — especialmente quando chega de forma abrupta. “Foi um diagnóstico familiar. Na minha casa, mudou a vida de todo mundo”, conta Mari.
Quando a DM1 autoimune chega sem aviso, todo o processo de adaptação é vivido sob pressão. Mas, quando a família tem acesso à informação com antecedência, o cenário muda completamente. É possível orientar a escola antes das transformações na rotina, planejar ajustes com calma, aprender sobre hipoglicemia e hiperglicemia sem correr contra o relógio e, principalmente, reduzir a ansiedade da criança diante de uma condição que exige cuidado contínuo. Esse preparo também evita que o diagnóstico aconteça de forma traumática, no contexto de uma emergência. “A gente vai contornando as situações para deixar a infância ser uma infância”, resume Mari.
A hereditariedade importa (e muito)
Embora a DM1 autoimune possa surgir em qualquer pessoa, em qualquer idade, os parentes de primeiro grau (como filhos de mães ou pais com DM1 autoimune) têm um risco de 10 a 15 vezes maior de desenvolver a doença quando comparados à população geral17-18-19 Esse é um ponto pouco conhecido pelas famílias. A maior parte das crianças diagnosticadas hoje não tem histórico familiar, mas quando existe essa conexão genética, o risco aumenta de forma significativa. Por isso, a orientação médica atual considera o histórico familiar um fator importante para decidir quem deve realizar a testagem de autoanticorpo para detecção precoce da doença.
Inovação que abre uma nova janela de cuidado
Entre os avanços científicos mais recentes, uma abordagem inovadora demonstrou potencial para postergar o início da fase sintomática do diabetes tipo 1 autoimune por aproximadamente dois anos. Esse intervalo adicional pode contribuir para a preservação parcial da função das células beta e permitir uma transição mais planejada para a vida com a doença.3 É importante destacar que essa estratégia não impede a evolução do DM1 autoimune e não substitui o tratamento com insulina quando necessário. Mas oferece algo que, para muitas famílias, é valioso: tempo para se preparar emocionalmente, ajustar a rotina, amadurecer e entender a doença com calma.
Essa inovação representa uma mudança de paradigma: pela primeira vez, existe a possibilidade de atuar antes do aparecimento dos sinais clínicos, em um momento em que o organismo ainda mantém parte da capacidade de produzir insulina.
“Isso transforma a lógica do diagnóstico. Se sabemos que existe uma forma de adiar a progressão da doença, surge um motivo real para realizar o rastreamento em crianças com risco aumentado, especialmente aquelas com parentes de primeiro grau com diabetes. Antes, os pais perguntavam: ‘Para que eu vou saber se meu filho vai ter diabetes se eu não posso fazer nada?’. Em um futuro próximo poderemos fazer alguma coisa. Poderemos agir e ganhar tempo”, diz o endocrinologista.

Informação é tudo
Entre as famílias, uma frase aparece repetidamente quando o assunto é diabetes tipo 1 autoimune: “Falta conhecimento sobre testes que poderiam identificar a doença antes dos sintomas.” A percepção resume um desafio real. A detecção precoce existe, a ciência evoluiu e uma nova abordagem está prestes a chegar ao Brasil, mas esses avanços só fazem diferença quando chegam também às pessoas que deles precisam.
A ampliação do conhecimento é um primeiro passo decisivo. Entender a diferença entre DM1 autoimune e DM2, compreender que a doença evolui silenciosamente e reconhecer o valor da detecção precoce permite que você tome decisões informadas sobre o futuro do seu filho. A informação certa, no momento certo, pode evitar emergências, reduzir ansiedade e abrir espaço para um cuidado mais preparado e seguro.
REFERÊNCIAS
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MAT-BR-2600344/Março de 2026

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