Por
Beatriz Possebon
16/04/26


Se você convive com uma criança pequena, já sabe: as birras fazem parte da rotina. Elas aparecem do nada, crescem rápido e, muitas vezes, deixam qualquer adulto sem saber o que fazer. Nos últimos tempos, uma estratégia curiosa ganhou força nas redes sociais e chamou a atenção de muitos pais: o chamado “truque da Jessica”.

A proposta é simples — e até estranha à primeira vista. Em meio ao choro intenso, o adulto diz algo como “Olha, a Jessica está aqui” ou “Cadê a Jessica?”. E, de repente, a criança para, olha ao redor e interrompe o choro. Parece mágica. Mas será que funciona mesmo?

O que é o truque “Jessica” e por que ele chama atenção

A técnica viralizou em vídeos que mostram crianças pequenas presas em um ciclo de choro, até que um adulto menciona o nome “Jessica”. O efeito, em muitos casos, é imediato: a criança se distrai e muda o foco.

Apesar do nome específico, não existe nada de especial em “Jessica”. O que realmente está por trás da estratégia é o elemento surpresa. Ao introduzir uma informação totalmente nova, especialmente algo inesperado, o adulto consegue quebrar o ciclo emocional em que a criança está presa naquele momento.

Como a distração ajuda a interromper a birra

O que acontece durante uma birra é um “loop emocional”: a criança fica sobrecarregada, sem conseguir sair daquele estado. Ao trazer um estímulo diferente, o adulto redireciona a atenção.

Essa mudança de foco funciona porque crianças pequenas são naturalmente atraídas por novidades. Quando ouvem algo inesperado, como o nome de alguém que não está ali, elas precisam parar para processar a informação. Esse pequeno “intervalo” pode ser suficiente para interromper o choro.

Além disso, o comportamento do adulto também influencia. Ao falar de forma calma e esperar uma reação, ele modela a resposta que espera da criança. Muitas vezes, ela acaba imitando esse estado mais tranquilo.

Mas há um ponto importante aqui. Para o psicólogo, orientador parental e colunista da Pais&Filhos, Cid Paz Vieira Filho, pai de Manuela e Laura, a ideia de redirecionar a atenção pode, sim, funcionar — desde que faça sentido para a criança. Segundo ele, essa “técnica” pode ser eficaz, mas o ideal é que esteja conectada a algo real, que a criança possa enxergar, sentir e vivenciar, e não apenas a uma figura aleatória.

Na prática, isso significa olhar ao redor e transformar o ambiente em aliado. Em vez de um nome fictício, vale convidar a criança para interagir com algo concreto: um objeto, uma ação ou até uma pequena tarefa. Em um momento de birra no mercado, por exemplo, chamar a atenção para algo familiar — como um alimento de que ela gosta — e convidá-la a participar pode ser mais efetivo do que apenas tentar interromper o choro com uma distração sem contexto.

O nome importa? Não exatamente

Apesar de ter ficado conhecido como “truque da Jessica”, não há nenhuma evidência de que esse nome específico tenha um efeito especial. Não existe relação comprovada entre sons, letras ou combinações específicas e a capacidade de acalmar uma criança.

Na prática, qualquer elemento novo e inesperado pode funcionar da mesma forma. O importante não é o nome em si, mas a quebra de padrão que ele provoca naquele momento de intensidade emocional.

Funciona melhor do que outras estratégias?

Muitos pais já tentaram oferecer brinquedos ou comida para interromper uma birra. O problema é que essas abordagens podem gerar mais estímulo — e até reforçar o comportamento.

Distrair com um objeto, por exemplo, pode ensinar a criança que chorar leva a recompensas. Já associar comida ao fim do choro pode criar uma relação pouco saudável com a alimentação.

Nesse contexto, o truque da “Jessica” pode funcionar melhor justamente por não oferecer uma recompensa direta. Ele apenas muda o foco da criança, sem adicionar novos estímulos ou reforçar o comportamento.

Ainda assim, como reforça Cid Paz Vieira Filho, não basta apenas tirar o foco. É importante que exista uma intenção interessante para a criança — algo que faça sentido naquele contexto e que a convide a se envolver de forma ativa.

Os limites do truque da “Jessica”

Apesar de útil em alguns momentos, essa estratégia não resolve tudo. Interromper a birra não é o mesmo que ajudar a criança a lidar com o que está sentindo.

A psicóloga Mariana Sotero Bonnás, mãe de Vítor e Mariah, colunista da Pais&Filhos e referência no atendimento a mães atípicas, chama atenção justamente para esse ponto. Segundo ela, a chamada “técnica da Jessica” é, na prática, uma estratégia de distração: ela interrompe momentaneamente o foco da criança com um elemento inesperado, redirecionando a atenção e reduzindo o choro naquele instante.

Mas isso não significa que houve regulação emocional. Como ela explica, interromper o choro não é o mesmo que ajudar a criança a se organizar internamente — e essa diferença se torna ainda mais sensível quando falamos de crianças neurodivergentes.

Muitas dessas crianças já enfrentam desafios importantes para compreender, nomear e organizar suas emoções. Quando se recorre apenas à distração ou à confusão, pode até haver alívio imediato, mas não necessariamente há aprendizado emocional. Em alguns casos, essa quebra brusca pode até aumentar a desorganização.

A pediatra Ana Luiza Ract, mãe de Aurora, que atua com neurodesenvolvimento infantil e também é colunista da Pais&Filhos, reforça esse olhar. Segundo ela, a criança ainda está desenvolvendo sua capacidade de lidar com o que sente. Quando há acolhimento e validação, esse processo de regulação emocional é fortalecido.

Nesse sentido, o foco não deve ser evitar o sentimento, mas ajudar a criança a atravessá-lo com mais segurança. Estratégias que apenas desviam a atenção, como a proposta do truque da “Jessica”, podem acabar deixando de validar o que a criança está sentindo naquele momento, o que é uma parte essencial do desenvolvimento emocional.

Na prática, o que sustenta o desenvolvimento emocional é outro caminho: acolhimento, validação e ensino gradual. Ou seja, mais do que fazer a criança parar de chorar, o objetivo é ajudá-la a entender o que está acontecendo dentro dela e, aos poucos, aprender a lidar com isso.

Outro ponto importante: usar distração o tempo todo pode impedir que a criança desenvolva habilidades para lidar com frustração e emoções difíceis. Ou seja, a técnica pode ajudar no momento, mas não substitui o desenvolvimento emocional.

Quando a estratégia pode não funcionar

Cada criança reage de um jeito. Algumas podem se distrair facilmente, enquanto outras não respondem bem a mudanças inesperadas.

Crianças mais sensíveis, neurodivergentes ou que se desorganizam com facilidade podem não reagir positivamente a esse tipo de interrupção. Para elas, a mudança repentina pode gerar ainda mais desconforto.

Além disso, o que funciona uma vez pode não funcionar sempre. Como qualquer estratégia baseada em novidade, o efeito pode diminuir com o tempo.

Redes sociais não são regra universal

O sucesso do truque da “Jessica” também levanta um ponto importante: nem tudo o que viraliza funciona para todas as famílias.

As redes sociais costumam apresentar soluções rápidas e universais, mas a realidade é mais complexa. Cada criança tem suas próprias necessidades, e o que funciona para uma pode não funcionar para outra.

Ainda assim, experimentar abordagens diferentes pode ser válido — especialmente quando elas não causam nenhum prejuízo. O mais importante é observar a resposta da criança e ajustar o caminho conforme necessário.

O que realmente importa no fim das contas

Mais do que interromper uma birra, o objetivo é ajudar a criança a atravessar emoções intensas de forma segura.

O truque da “Jessica” pode ser um recurso pontual, útil em momentos de sobrecarga. Mas ele funciona melhor quando faz parte de um conjunto maior de estratégias, que inclui acolhimento, escuta e construção de vínculo.

Porque, no fim, não se trata apenas de parar o choro — e sim de ensinar a criança, aos poucos, a entender e lidar com o que sente.





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