Por
Lane Baptista
24/04/26


O mutismo seletivo é uma conversa que precisa ganhar voz em alto e bom tom. Essa manifestação da ansiedade impede a fala, mesmo quando existe vontade de se expressar, e atrapalha o diálogo com quem nunca ouviu sequer um sussurro desse silêncio.

Ele chega sem avisar e ocupa o lugar das palavras. Embora ensurdecedor, há quem não escute esse barulho; até mesmo alguns grandes profissionais que acompanham os nossos pequenos. Talvez porque não seja uma melodia afinada, mas um descompasso, ou incomode menos quem escuta as vozes de fora do que quem tenta silenciar as de dentro.

Lembro das primeiras vezes em que percebi que minha filha não era “só tímida”. Em casa, ela se vestia de vozes que vinham em diferentes roupinhas: gargalhadas maiores que o próprio corpo, perguntas que pareciam questões de prova, histórias contadas e recontadas, entre outros modelos que transformavam a casa inteira em uma vitrine mágica.

Mas, do lado de fora, os figurinos se recolhiam em um só: o da camuflagem. Ela queria passar sem ser notada. As palavras, que em casa dançavam soltas, ficavam presas nas cordas vocais. A musicalidade da voz não encontrava ritmo.

A mudez dela me mudou. Me fez uma versão melhor de mãe. A ausência da voz pediu presença. O olhar virou linguagem. O tempo virou aliado. Aprendi que nem tudo precisa ser dito para ser entendido.

A quietude vinha acompanhada de olhares curiosos, questionamentos que não esperavam resposta, tentativas de apressar a fala que não aceita ser dita correndo.

“Ela fala em casa?” — perguntavam. “Fala”, eu dizia entre os dentes.

Uma pausa mal interpretada mudava o rumo da conversa. E um silêncio estratégico acabava calando o outro.

(Foto: Shutterstock)

A maternidade, ao nos colocar nesse lugar, pede uma força que não vem de uma gestação planejada. Testes assim pedem um resultado que nasce prematuramente, com contrações intensas que a gente nem sabia que conseguiria parir dentro de si. Vai além do físico, além do emocional. É uma confiança que sustenta tudo aquilo que ainda não encontra palavra.

Aos poucos, aprendi a escutar com o coração. Um olhar mais paciente. Um gesto miúdo, mas grande no sentir. Percebi que comunicação não é só fala. Muito se transmite onde a palavra ainda não chegou. Quando a gente aprende a ler a comunicação não verbal, entende que o silêncio nunca foi falta, mas excesso de tentativas.

Não se trata de acelerar a voz, mas de desacelerar o medo. E isso pede tempo. Um tempo que não segue o relógio do mundo, mas desperta na hora certa, quando os ponteiros do respeito e da constância se ajustam. É nesse tempo desalinhado do mundo que a vida continua ensaiando a própria voz e encontrando seu lugar de fala. E, no correr de cada minuto, a gente se transforma.

A pressa já não cabe. O controle perde poder. Devagarinho, a gente exercita o permanecer. Porque, no fim do dia, o que nos ancora é maternar no agora, seja no barulho ou no silêncio.



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