Por
Mariana Sotero Bonnás
02/05/26


Julia sabia, desde a semana anterior, que o domingo, 10 de maio, seria difícil. Não porque ninguém fosse lembrar dela – o marido já tinha prometido um café da manhã especial, as crianças iam fazer um desenho na escola. Ela sabia que seria difícil por outro motivo, um que ela ainda não tinha conseguido explicar direito para ninguém: o Dia das Mães dela nunca coube no que o mundo imagina que ele deveria ser.

Os cartões falam em gratidão, em leveza, em amor que tudo supera. As propagandas mostram mesas postas, flores, abraços longos. E Julia olha para tudo isso com um carinho e com uma distância que ela mesma não sabe nomear. Porque a maternidade dela tem abraços e amor, mas também tem uma realidade que não cabe em nenhum cartão que ela já viu nas prateleiras das lojas. Existe uma versão do Dia das Mães que a maioria das pessoas não conhece: é a versão da mãe atípica.

A mãe que acorda naquele domingo sabendo que a rotina não vai parar, porque ela nunca para. Que o filho pode ter uma crise mesmo nesse dia, que as terapias da semana que vem já estão na cabeça dela, que o formulário do plano de saúde ainda precisa ser preenchido. O mundo decreta um dia de celebração, e o corpo dela ainda está no meio de uma semana que não terminou.

Não é ingratidão nem falta de amor, é o resultado de viver uma maternidade que exige tanto, de forma tão contínua, que nem os feriados conseguem criar uma pausa de verdade.

E o que mais pesa, muitas vezes, não é nem o cansaço físico. É a sensação de que a sua maternidade não se encaixa na imagem que o mundo celebra nesse dia. Que a sua história é mais complexa, mais desafiadora, mais solitária do que os cartões conseguem alcançar.

Ao longo dos anos ouvindo mães atípicas no consultório, aprendi que o Dia das Mães desperta sentimentos muito diferentes nessas mulheres. Algumas sentem uma tristeza que não conseguem explicar direito. Outras sentem raiva, uma raiva legítima de uma data que parece celebrar uma maternidade que não é a delas. Algumas sentem as duas coisas ao mesmo tempo, misturadas com o amor real que sentem pelos filhos, e ficam confusas com essa mistura.

(Foto: Shutterstock)

Essa confusão faz sentido. É possível amar profundamente e, ainda assim, sentir que falta algo. É possível ser grata e, ainda assim, estar exausta. É possível receber flores e, ainda assim, sentir que a parte mais importante do que você vive continua invisível.

Se você é uma mãe atípica lendo isso: a sua dor nesse dia não invalida o seu amor. A sua exaustão não invalida a sua dedicação. E o fato de que você sente que o Dia das Mães não cabe completamente na sua realidade não significa que você está comemorando errado.

Significa que a sua maternidade é maior do que qualquer cartão consegue conter, que você não se sente representada, porque a parte “boa” de ser mãe pode não funcionar se você não tiver uma rede que te sustente, seja ela prática, financeira ou emocional.

Talvez a questão não seja se todas as mães conseguem comemorar essa data, mas se estamos, de fato, dispostos a enxergar as diferentes formas de viver a maternidade, inclusive aquelas que não são leves ou fáceis de compartilhar.

Que, neste Dia das Mães, você, mãe atípica, possa se sentir amada, amparada e, principalmente, vista, porque, no fundo, é isso que mais importa!



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