No dia 2 de abril, o Dia Mundial da Conscientização do Autismo chama atenção para um tema que faz parte da realidade de milhões de famílias: o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais do que uma data no calendário, o momento reforça a importância de reconhecer os sinais precocemente, buscar apoio e entender que o caminho até o diagnóstico — e depois dele — é feito de etapas, dúvidas e descobertas.
Foi assim para Simone Pereira Silva, mãe de José Arthur. Sem conhecer as características do autismo, ela acreditava que o atraso na fala do filho, hoje com 7 anos, estava relacionado ao isolamento durante a pandemia de Covid-19. A suspeita só veio mais tarde, quando ele já tinha 3 anos e meio, após a entrada na creche.
“Na creche me recomendaram investigar, pois ele seguia não falando e pouco socializava com as outras crianças. Começamos com atendimento em um posto de saúde e também agendei terapias com profissionais particulares, através do convênio. Foi um período intenso. Estávamos sempre em busca de informações e esclarecimentos”, relembra.
Entre dúvidas, pressão e busca por respostas
O caminho até entender o que estava acontecendo não foi simples. Simone conta que, enquanto ainda buscava respostas, também lidava com cobranças externas.
“Eu ainda estava nessa caminhada de buscar ajuda e investigar exatamente o que meu filho tinha. Foram muitos atritos”, diz, ao lembrar da pressão da escola por avanços e por um diagnóstico com laudo.
Essa realidade não é isolada. No Brasil, mais de 2,4 milhões de pessoas estão dentro do espectro autista, segundo o IBGE, mas especialistas apontam que esse número pode ser ainda maior, já que muitos casos não são diagnosticados. O acesso desigual à avaliação também contribui para esse cenário.
Por isso, o olhar atento de cuidadores e profissionais faz diferença desde cedo.
Os sinais começam cedo — mas nem sempre são óbvios
Os primeiros sinais do autismo podem surgir antes dos 2 anos de idade, mas nem sempre são fáceis de identificar. Por isso, o olhar atento de cuidadores e educadores é fundamental.
Nos primeiros meses de vida, alguns comportamentos podem chamar atenção, como pouco contato visual, ausência de sorrisos sociais e baixo interesse por interações. Bebês que não respondem ao próprio nome ou não demonstram engajamento em brincadeiras simples também merecem atenção.
Entre 1 e 2 anos, sinais como atraso na fala, dificuldade em apontar objetos de interesse e pouca resposta emocional a outras pessoas podem aparecer. Movimentos repetitivos, como balançar o corpo ou agitar as mãos, também podem surgir nessa fase.
Já entre 2 e 4 anos, é comum observar preferência por brincar sozinho, dificuldade em compreender emoções e expressões faciais, além de comportamentos mais rígidos, como apego intenso a rotinas e interesses específicos.
Nem todo atraso ou comportamento diferente significa autismo. Mas, ao perceber um conjunto desses sinais, é importante buscar avaliação especializada.
Diagnóstico pode levar tempo — e tudo bem
O diagnóstico do TEA é clínico e costuma ser mais seguro a partir dos 18 meses, quando é possível avaliar melhor o desenvolvimento da criança.
Nesse processo, o neurologista tem papel fundamental na investigação e confirmação do diagnóstico. Outros profissionais, como fonoaudiólogos, também podem atuar desde o início, principalmente no desenvolvimento da comunicação.
“Ter um filho com autismo requer o desenvolvimento de algumas habilidades. O ideal é que os pais façam acompanhamento psicológico, a fim de adquirir estratégias para lidar com a situação, que varia muito em cada caso”, explica o profissional da área de neurologia no AmorSaúde, Tonny Luccas.
Depois da confirmação, é definido o nível de suporte necessário, o que ajuda a direcionar os cuidados ao longo da vida.
O momento do diagnóstico também pode trazer alívio
Depois de um período marcado por dúvidas e buscas, a confirmação do diagnóstico trouxe um sentimento inesperado para Simone.
“Quando recebi o diagnóstico senti até um alívio, pois sabia que ele seria acompanhado e teria todo o suporte necessário para se desenvolver”, conta.
Com o início das intervenções, as mudanças começaram a aparecer.
“Ele melhorou muito. A mudança foi nítida. É um processo de degrau a degrau, mas quando se olha para trás, em um ano, o quanto ele evoluiu… é gratificante”, relata.
A evolução também foi observada pelos profissionais que acompanham o menino. Segundo coordenadora do Centro de Terapia Aba do Hospital e Maternidade Sepaco, Adriana Faria Pereira, houve avanços na interação social, na comunicação e em habilidades importantes do dia a dia.

Intervenção precoce faz diferença
Um dos pontos mais importantes quando falamos de autismo é a intervenção precoce. Quanto antes a criança começa a ser acompanhada, maiores são as chances de desenvolver habilidades sociais, de comunicação e de autonomia.
“Monitorar o desenvolvimento favorece a adoção de estratégias para prevenir atrasos e possibilita intervenções mais eficazes. Especialmente em casos de TEA, não é necessário aguardar um diagnóstico formal para iniciar o acompanhamento”, explica Adriana.
O cuidado costuma envolver uma equipe multidisciplinar, com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros especialistas. A participação da família também é fundamental em todas as etapas.
Níveis de suporte no autismo
O TEA é chamado de “espectro” justamente porque apresenta diferentes níveis de necessidade de apoio.
No grau 1, a criança precisa de menos suporte, com foco principalmente na interação social e na adaptação a mudanças. Já no grau 2, o acompanhamento costuma ser mais intenso, envolvendo comunicação verbal e não verbal, além de questões comportamentais.
No grau 3, considerado mais severo, há necessidade de suporte intensivo, principalmente para comunicação e atividades do dia a dia. Em muitos casos, a pessoa pode depender de apoio ao longo de toda a vida.
Mesmo assim, com acompanhamento adequado, crianças com graus 1 e 2 podem desenvolver autonomia significativa, inclusive na vida escolar.
Cada fase traz necessidades diferentes
O autismo é um espectro, o que significa que cada pessoa pode apresentar necessidades diferentes ao longo da vida.
Há casos que exigem menos suporte, com foco em interação social e adaptação. Outros demandam acompanhamento mais intenso, incluindo comunicação, comportamento e atividades diárias. Nos quadros mais severos, pode haver necessidade de suporte contínuo.
Na vida adulta, o acompanhamento também pode continuar, com apoio de profissionais que ajudam no desenvolvimento da autonomia, na comunicação e na adaptação à rotina.
Além disso, o papel da família segue sendo essencial — seja na organização do ambiente, na redução de estímulos ou no cuidado com o tratamento.
Desafios e importância da informação
Apesar dos avanços, o caminho até o diagnóstico ainda pode ser longo e cheio de incertezas. Muitas famílias relatam dificuldade em acessar informações confiáveis e em encontrar suporte adequado.
Por isso, ampliar o debate — especialmente em datas como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo — é fundamental. Quanto mais informação circula, maiores são as chances de identificação precoce, inclusão e acolhimento.

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