Por
Mariana Sotero Bonnás
02/04/26


Marina acorda cedo naquele dia não porque dormiu bem, já que raramente consegue ter uma noite inteira de sono, mas porque tem uma rotina que não pode esperar e um corpo que aprendeu a seguir funcionando mesmo quando está exausto. A terapia do Bruno, seu filho de 6 anos, começa às oito, ela ainda precisa dar medicação, organizar a mochila e dar atenção ao filho que tem seletividade alimentar e não se troca sozinho.

O café é tomado em pé, entre uma tentativa de regulação e outra, enquanto o dia já começa exigindo dela mais do que, muitas vezes, sente que tem para dar. Naquele dia, ao perceber que é 02 de abril, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, ela se vê atravessada por uma data que não é apenas simbólica, mas que toca diretamente a sua história e a de Bruno, lembrando da importância de se dar visibilidade para a causa.

Do lado de fora, o mundo se mobiliza, campanhas são feitas, informações são compartilhadas e, com razão, a atenção se volta para o autismo em um movimento necessário que amplia o debate e contribui para uma sociedade mais inclusiva. Ainda assim, existe uma realidade que não aparece e que continua acontecendo, de forma silenciosa, dentro de casas como a de Marina, a da mãe atípica.

Por trás de cada diagnóstico, existe uma mulher que precisou reorganizar a própria vida, rever expectativas e sustentar, cotidianamente, uma realidade que ninguém ensinou a viver. O que eu observo enquanto psicóloga, tanto na prática clínica quanto fora dela, é a presença de um sofrimento silencioso, acumulativo e profundamente invisibilizado, como se não houvesse espaço legítimo para ele existir.

O Dia Mundial da Conscientização do Autismo foi criado em 2007, pela ONU
O Dia Mundial da Conscientização do Autismo foi criado em 2007, pela ONU (Foto: Getty Images)

 Muitas dessas mães passam a ser percebidas quase exclusivamente a partir da função de cuidadora, como se sua existência pudesse ser reduzida a esse papel e não a quem ainda são para além do cuidado. Isso faz com que, ao longo do tempo, aprendam a silenciar o próprio sofrimento, não necessariamente por escolha, mas porque internalizam a ideia de que sua dor é menor ou inadequada diante das necessidades do filho.

O que raramente se percebe é o quão desgastante é para a mãe atípica essa rotina, atravessada por incertezas, medos e pela necessidade de reconstruir o caminho constantemente, aprendendo a não criar tantas expectativas e a estar sozinha, em muitos momentos, por falta de rede de apoio.

Ao mesmo tempo, essa mulher assume uma posição de muita responsabilidade, na qual precisa aprender rapidamente sobre tratamentos, terapias, medicações, direitos e inclusão, enfrentando uma sobrecarga que não é apenas prática, mas profundamente emocional e que tende a se intensificar quando não encontra espaço de acolhimento.

Por isso, falar sobre a pessoa com deficiência é fundamental, mas não é suficiente se não reconhecermos, de maneira consistente, quem está por trás desse cuidado diário, muitas vezes abrindo mão de si mesma no processo. A mãe atípica não precisa e nem quer ser colocada em um lugar de heroísmo, mas sim ser reconhecida em sua humanidade, como alguém que também se cansa e precisa de ajuda.

Se você é mãe atípica, saiba que o seu cansaço não é exagero, que seus sentimentos são reais e que saber seus limites não diminui o cuidado, na verdade, o torna possível. E se você não é, mas conhece uma mãe atípica, pergunte como pode ajudar.

Quando cuidamos das mães atípicas, estamos contribuindo com quem, mesmo ainda invisível, mantém tudo de pé.



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