Por
Valesca Karsten
16/04/26


Dia desses, estive conversando com uma amiga, que é educadora e empreendedora, assim como eu. Falávamos sobre o perfil dos alunos que foram criados com as coisas mais facilitadas pelos pais. Ela percebe isso em sala de aula e eu percebo desde cedo, acompanhando de perto as crianças na educação infantil.

Quem nunca facilitou a vida dos filhos com a intenção de não repetir dores, faltas ou durezas que viveu? Ou simplesmente pensando em facilitar a vida dos filhos?

O desafio da educação é justamente esse: não existe manual, receita ou atalho. Cada família é única, cada criança também. E, como se isso não bastasse, há sempre os palpiteiros de plantão, prontos para opinar, julgar e transmitir teorias como se fossem verdades absolutas.

Na minha experiência, acompanhando famílias de perto há muitos anos, percebo muitas mães confusas em meio a tantas informações ditas como assertivas. Um excesso de orientações que, em vez de acolher, muitas vezes gera insegurança e culpa.

Em meio a tudo isso, fico me perguntando: o que precisamos transmitir às nossas crianças na infância, que é a base de tudo, para que cresçam mais confiantes? E, talvez mais importante ainda, o que precisamos dizer às mulheres para que possam acreditar que são mães suficientemente boas?

Mas por que suficientemente boa?

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, trouxe esse conceito para aliviar o peso da perfeição que tantas mães carregam. Para ele, a mãe suficientemente boa é aquela que consegue responder de forma sensível às necessidades do bebê, especialmente nos primeiros anos, oferecendo cuidado, proteção e acolhimento. Com o passar do tempo, essa adaptação deixa de ser total e pequenas falhas começam a aparecer. Falhas toleráveis, humanas, necessárias.

Empatia é o pedaço de mim que vai no outro (Foto: Getty Images)

É justamente nesse espaço entre presença e ausência que a criança desenvolve recursos próprios, constrói autonomia emocional e forma um self saudável. Winnicott nos ensina que não é a perfeição que sustenta o desenvolvimento infantil, mas a presença real, possível e afetiva, isto é, o vínculo.

Não sei como é para você, mas confesso que, quando li pela primeira vez sobre a mãe suficientemente boa, aquilo me soou quase como pouco. Com o tempo, sendo mãe e estudando mais profundamente Winnicott, fui entendendo que já é muita coisa ser suficiente. E que, talvez, o grande problema esteja justamente na exigência de sermos mais do que isso.

Aceitar ser suficiente, é sair do lugar de um poder que a maternidade nos dá – é poder abrir espaços para outras partes de si mesmas, além do maternar.

Dia desses, ouvindo um podcast sobre literatura, um artista compartilhou a definição da palavra empatia, na língua crioula: empatia é o pedaço de mim que vai no outro.

Talvez seja disso que mães, pais e educadores mais precisem hoje: empatia. Empatia com as crianças, com os outros adultos e, principalmente, consigo mesmos. Porque quem é responsável por criar uma criança sabe que essa não é uma tarefa pequena, nem simples, nem deveria ser solitária.

Quando temos filhos, toda ajuda é mais do que bem-vinda. Às vezes, perguntar para uma mãe como ela gostaria de ser ajudada já é, por si só, um gesto suficientemente bom.



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