Por
Cid Paz Vieira Filho
16/04/26


Confesso que senti um certo frio na barriga ao pensar em escrever para a Pais & Filhos. Mas, antes de qualquer conceito ou reflexão, existe uma história — e é dela que eu parto.

Tenho 44 anos, sou pai de duas meninas, e foi a paternidade que reorganizou grande parte de quem me tornei. Costumo dizer, de forma leve, que sou um “pai perfeito”, no sentido de reconhecer e assumir as imperfeições que fazem parte de mim como homem e como pai. É nesse aparente paradoxo que encontro uma verdade simples: cuidar não é perfeição, mas presença, responsabilidade e disposição para aprender.

Sou casado e, como qualquer pessoa, sou atravessado pelos desafios de sustentar uma relação, construir vínculos e entender, na prática, que amar vai muito além de boas intenções. Amor, no nosso dia a dia, pede escolha, constância e, muitas vezes, a capacidade de recalcular a rota.

Minha trajetória profissional não começou na psicologia. A mudança de carreira foi também uma mudança de olhar sobre a vida e sobre mim mesmo. Escolher esse caminho, com foco em parentalidade e relações, foi um compromisso com aquilo que nos constitui: os vínculos que criamos e sustentamos ao longo da vida.

Hoje, meu trabalho me permite estar próximo de famílias, casais e adolescentes, aprendendo diariamente com suas histórias. Falar sobre parentalidade, masculinidade e cuidado, para mim, é falar sobre responsabilidade, presença e transformação.

(Foto: Pexels/Vanessa Loring)

Venho de uma geração marcada por referências mais rígidas sobre o que é ser homem. Homens dessa geração frequentemente se reconhecem em um lugar de transição, entre o que aprenderam e o que escolhem construir — e é possível afirmar que eles podem (e devem) ocupar espaços de cuidado, afeto e participação ativa na vida familiar.

A parentalidade também coloca os adultos diante do que ainda não resolveram. Muitas vezes, são os filhos que revelam as próprias histórias, faltas e aprendizados. Cuidar deles passa, inevitavelmente, por olhar para dentro, rever caminhos e construir, com mais consciência, novas formas de estar e se relacionar todos os dias.

Nesse caminho, é natural que surjam dúvidas, angústias e até contradições. Isso faz parte. Não se trata de buscar fórmulas prontas ou mudanças radicais, mas de cultivar presença, flexibilidade e autenticidade. Um pouco de leveza também ajuda, porque as relações não precisam ser perfeitas para serem saudáveis. E, muitas vezes, saber diferenciar o papel de pai e de parceiro já faz uma grande diferença no equilíbrio da família.

É a partir dessas vivências – como pai, marido, filho e profissional – que este espaço é assumido. Mais do que trazer respostas, a proposta é abrir conversas. Falar sobre temas que nem sempre cabem na correria do dia a dia, mas que fazem toda a diferença na forma como nos relacionamos, seja na relação parental ou conjugal.

Este é um convite para quem deseja olhar com mais atenção para si, para o outro e para os vínculos que constrói. Um espaço de reflexão, escuta e respeito, porque, no fim das contas, cuidar também é uma escolha – talvez uma das mais importantes que fazemos.

Façamos boas escolhas, como pais e filhos.



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