Por
Valesca Karsten
05/04/26


As crianças acreditam em muitas coisas que os adultos vão deixando pelo caminho ao longo da vida.

Na infância, quase tudo parece possível. Na Páscoa, por exemplo, os pequenos acreditam que o coelhinho consegue entrar silenciosamente em suas casas, deixar pegadinhas e esconder ninhos cheios de doces surpresas.

Quando penso nessa época, a primeira imagem que me vem à memória não é a do chocolate, mas das manhãs de domingo em que eu acordava cedo para seguir as pegadas do coelhinho pela casa.

Meus pais criavam verdadeiros labirintos com essas pegadas e eu, encantada, saía à caça. Minhas perninhas eram curtas e o caminho parecia longo.

Quando finalmente encontrava o meu ninho, era uma festa. Naquele tempo, os coelhos de chocolate eram maciços, pesados, e eu levava dias para comer.

Depois de achar o meu ninho, minha mãe tinha um pequeno ritual: partia pedaços do chocolate — às vezes das orelhas do coelhinho — e colocava na minha lancheira.

Eu achava o máximo levar um pedacinho da minha Páscoa para a escola. Era como prolongar aquela alegria por mais alguns dias.

Teve também um ano em que ganhei um coelho de verdade. Fiquei fascinada com o pelo macio e os olhos vermelhinhos.

Porém, ele não parava no meu colo e, além disso, fazia cocô pela casa toda. Foi então que a minha vó Adelaide, que criava galinhas, levou o coelho para o galinheiro, acho que ele ficou mais feliz por lá do que dentro de casa.

(Foto: Getty Images)

Hoje, como educadora, mesmo depois de tantos anos convivendo com crianças na escola, sigo me surpreendendo com a força da fantasia e o fascínio que essa época do ano desperta nos pequenos.

Para eles, o coelhinho da Páscoa é um personagem vivo. Eles imaginam que ele pode estar escondido em algum lugar, observando tudo, preparando ninhos e espalhando pegadas.

Quando enfeitamos a escola, a casa ou organizamos pequenas atividades de Páscoa com as crianças — como pintar ovos, preparar ninhos ou contar histórias — o entusiasmo delas é contagiante. E, sem perceber, os adultos também se reencantam.

Muitas vezes, são pequenos gestos, como esconder um ninho, preparar uma surpresa, contar uma história — que representam muito para as crianças e permanecem para sempre em suas memórias afetivas.

Outro dia, ouvi uma história curiosa que me fez pensar nisso. Um chef português criou um prato inspirado em uma lembrança da infância ligada ao universo de O Sítio do Picapau Amarelo. A apresentação fazia referência aos famosos ovos de ouro da história. Achei fascinante pensar que uma memória infantil pode atravessar o tempo e inspirar até a alta gastronomia.

Nesta Páscoa, mais importante do que o tamanho do ovo de chocolate é o tamanho das memórias que ajudamos a criar.

Porque, no fundo, o que fica não é aquilo que o coelhinho trouxe, mas aquilo que foi vivido junto.

Desejo a todas as famílias uma Páscoa cheia de afeto, histórias e pequenas magias.



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