Acompanhar os passos dos filhos no ambiente digital à medida que eles crescem é um dos grandes desafios da parentalidade hoje. É possível supervisioná-los, orientá-los e protegê-los proporcionando segurança, autonomia e privacidade na medida certa?
Essa foi uma das discussões do Tela Consciente 2026, evento realizado pela Meta que abriu espaço para debates sobre o uso mais consciente e seguro das telas. Durante o painel sobre supervisão parental, uma questão ficou clara: ferramentas para dar aos pais mais controle sobre as atividades dos filhos no ambiente digital são importantes, mas o ponto de partida para encarar esse e outros desafios da adolescência são as conversas abertas em família.
Para aprofundar essa discussão, nossa CEO Andressa Simonini entrevistou o educador perinatal e parental Tiago Koch, pai de Iara e Nalu. Ele falou sobre por que vínculo e presença continuam sendo os recursos mais importantes nesse acompanhamento.
O desafio de acompanhar a tecnologia
Pesquisas indicam que adolescentes usam mais de 40 aplicativos por semana, com as mais diferentes finalidades, e acompanhar tudo isso enquanto novas tecnologias e formas de uso surgem o tempo todo é um desafio para os adultos.
“É como trocar o pneu com o carro andando. Estamos aprendendo a fazer”, afirma Tiago. Ele compara que navegar com os filhos no ambiente digital é como ensiná-los a atravessar a rua. “Temos que nos propor a dar as mãos aos nossos filhos para atravessá-la.”
Para Tiago, isso significa estar presente e interessado no que os filhos consomem online. “É saber quais são os interesses deles, os conteúdos que querem acessar. Estar junto também é uma oportunidade de construir vínculo e ser um porto seguro.”
Ferramentas de supervisão parental: o que os pais podem fazer
Durante o evento, foram apresentadas ferramentas de supervisão que ajudam as famílias a acompanhar a vida digital dos adolescentes.
Esses recursos permitem, por exemplo:
- Ver com quem o adolescente trocou mensagens recentemente
- Definir limites de tempo diário de uso
- Bloquear o aplicativo em horários específicos
- Receber notificações quando os filhos denunciam contas ou conteúdos
Ao mesmo tempo, essas ferramentas têm limites importantes. Elas não permitem acessar o conteúdo das conversas, apenas com quem as interações aconteceram. Essa diferença é essencial para equilibrar proteção e privacidade.

Supervisão não é invasão
Para Tiago, algumas dessas ferramentas podem ajudar muito os pais, especialmente quando o assunto é segurança. Uma das funcionalidades que mais chamou sua atenção foi a possibilidade de saber com quem os filhos estão conversando.
“Para mim, essa visibilidade é fundamental. Boa parte dos riscos no universo digital vem justamente do contato com pessoas malintencionadas”, explica. Outro recurso importante é o controle de tempo de uso das telas, que ajuda a limitar a exposição prolongada. “O controle de tempo é essencial , visto todo o impacto que um uso excessivo de telas pode ter”, afirma.
Quando a supervisão vira autoritarismo
Mas ferramentas sozinhas não resolvem tudo. Para Tiago, existe um risco quando a supervisão acontece sem diálogo ou vínculo. “Supervisão sem vínculo é autoritarismo”, diz. E por mais que alguns aplicativos tenham idade mínima permitida – no caso do Instagram é preciso ter pelo menos 13 anos para abrir uma conta -, a conversa sobre um uso equilibrado e consciente das telas tem que acontecer desde cedo.
Segundo ele, especialmente com crianças, o “não” precisa vir acompanhado de explicação. “De acordo com a faixa etária, é importante dar contexto e explicar quais são as consequências. Se a criança não entende o motivo daquele limite, ela tende a quebrar o acordo.”
O vínculo começa muito antes das telas
Durante a entrevista, um ponto apareceu várias vezes: o vínculo construído entre pais e filhos. Para Tiago, essa relação começa muito antes de qualquer conversa sobre internet.
“O vínculo só se estabelece a partir do cuidado”, explica. “É a qualidade do tempo e do suporte que os pais oferecem às crianças.”
Quando esse vínculo existe, crianças e adolescentes se sentem mais seguros para compartilhar o que vivem, inclusive no ambiente digital.

Entre culpa, realidade e aprendizado
Acompanhar os filhos no ambiente digital nem sempre acontece da forma ideal. Falta tempo, informação e, muitas vezes, rede de apoio. “Os pais muitas vezes não têm repertório ou letramento digital para lidar com essas situações.”
Mesmo assim, ele acredita que sempre há caminhos possíveis. “O primeiro passo é reconhecer que estamos atrasados”, afirma. “Mas sempre existe tempo para reparação.”
Outro ponto que ele destaca é o papel do exemplo. Antes de ensinar os filhos a usar a tecnologia, os adultos também precisam olhar para o próprio comportamento. “Antes de educar minha filha, eu preciso me educar”, diz. “Eu fico muitas horas no celular e uma parte grande desse tempo não é trabalho.”
E as crianças observam tudo. “Elas vão olhando isso, vão aprendendo. A forma como eu utilizo a tecnologia também está educando.”
Estar junto ainda é a maior proteção
Entre tantas ferramentas e estratégias, Tiago resume o conselho que costuma dar para outras famílias. “Buscar conhecimento é fundamental. Mas estar junto é ainda mais.”
Para ele, crianças e adolescentes querem, acima de tudo, sentir que são vistos. Por isso, ele tenta cultivar essa presença no dia a dia com as filhas. “Quero que elas saibam que eu as vejo e que estarei junto sempre que precisarem – na alegria, na tristeza e em todos os momentos.”
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